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Coraline e a Tríade Edípica

stop motion
É interessante observar como o processo de escrever vem realmente "de dentro" e toma um rumo natural e verdadeiro. A primeira vez que vi o filme "Coraline e o mundo secreto"  duas coisas ficaram evidentes para mim: os conflitos Edipicos e a semelhança com o filme "Alice no país das Maravilhas". Ao pesquisar o assunto vi que alguns sites citavam pontos Kleinianos tratando os impasses entre a Coraline e a sua mãe como uma alusão a fase em que o bebê se relaciona com objetos parciais, o seio bom e mau, um objeto ideal e outro persecutório (confesso que embora a teoria de Klein seja muito precisa para alguns temas, não é a que mais me atrai). Outros abordavam o conflito vivenciado pela garota entre o mundo ideal e real para abordar a entrada à vida adulta. Eu li, assisti trechos do filme e ainda enxergava "Edipo". Sentei para escrever e pela primeira vez mal conseguia sair do primeiro parágrafo. Levantei, desabafei ao celular com uma amiga (também psicóloga) sobre os acontecimentos do dia  e quando voltei a escrever me dei conta que a dificuldade (bloqueio) vem quando em algum ponto o tema nos toca lá no fundo, mais uma vez dei razão ao Freud. 

Coraline JonesA animação apresenta pais muito ocupados e uma pré- adolescente entediada e sem amigos após ter se mudado de cidade. Tudo muito normal até que Coraline encontra uma chave que dá acesso ao mundo perfeito, onde os pais são amorosos e atensiosos e tudo acontece do jeitinho que ela quer. Quantos de nós quando adolescentes não imaginávamos como seria diferente as coisas se nossas mães dissessem menos "nãos"? É esse o dilema que o filme traz de modo intenso e com qualidade marcante; a animação em stop-motion é espetacular.  O que Coraline e Alice tem em comum? Vidas marcadas por obrigações, regras, expectativas, grandes perdas (Alice o pai, Coraline os amigos) tudo que um adolescente não quer (e mal sabe ) lidar com tais coisas e por isso sai em busca de uma aventura onde possa gozar plenamente de tudo que deseja. A garota fica em extase quando entra em um mundo com pais iguaizinhos aos seus, entretanto, com um grande diferencial: são atentos a suas necessidades. A única diferença é que os "outros pais" não possuem olhos, mas sim botões costurados na face, surgindo dentre aquela realidade tão mágia algo sombrio e mórbido.   
AnimaçãoOs pais reais são aprisionados e os "outros pais" (bruxos) querem que a garota permaneça para sempre naquele mundo fantasioso. Para isso bastava Coraline deixar a "outra mãe" costurar botões no lugar dos seus olhos. A garota encontra almas de crianças que tiveram os olhos costurados em troca de uma vida "perfeita" e então descobre que somente ela poderá salvar a si e a seus pais. Na animação Coraline desafia a bruxa em troca da vida de seus pais, assim como no Mito Édipo consegue decifrar o enigma da Esfinge e salva a cidade e sua mãe. Outro ponto similar a cena mitológica é a referência da perda dos olhos, pois ao descobrir que havia assasinado o próprio pai Édipo desesperadamente arranca os próprios olhos com as mãos, privando-se da visão pela grande tragédia cometida e por não ter reconhecido a própria mãe. Já no desenho os botões marcam o adeus ao mundo real, a sua essência e aos pais verdadeiros com suas qualidades e falhas.
Tríade Edípico
Na teoria Freudiana há um desejo incestuoso da menina pelo pai na relação tríade (pai-mãe-bebê), hostilizando constantemente a mãe por querer assumir seu lugar, por isso, é comum haver atritos na relação mãe-filha. Na adolescência os conflitos se intensificam com o sentimento de culpa e ameaça da castração (sentimentos presentes na animação). De acordo com o autor a resolução do Complexo é responsável pela inserção da criança na realidade e o rompimento das relações simbióticas por meio do reconhecimento das interdições.

Ficou muito complicado? 
Veja o trailer da maravilhosa animação e confira uma linda produção totalmente descomplicada:
 

Mais Informações:
-Teoria Freudiana & Feminilidade

- Fantasias sexuais e edípicas em pré-adolescentes atendidos em grupo de psicoterapia lúdica


Veja também:

O divã

Paciente realizando cartaseDesde o último ano da faculdade sigo com a ideia de criar um blog, eu que sempre tive caraminholas na cabeça desde pequena ampliei meu interesse em observar e refletir sobre muitas coisas que nos cercam. A faculdade caiu como uma luva... e me trouxe um encantamento peculiar pelo ser humano e principalmente pelos seus avessos, a nossa "sombra" como apresenta Jung.

A primeira imagem que me veio para criar o blog foi o divã e foi difícil deixá-lo ai de um modo mais despojado e informal como eu o vejo sendo sinônimo de liberdade de expressão, um lugar onde eu possa encontrar-me comigo mesma sem julgamentos, uma onda de "deixa fluir tudo que vem a cabeça" trazendo um significado e um sentindo especial ao momento que estou vivenciando. Tudo isso, encaixou-se certinho com a minha proposta para este espaço. Pois esse "sofazinho " aconchegante permite que quem esteja nele possa falar livremente, sem ordem cronológica, sem se preocupar com nem um possível olhar de reprovação do ouvinte, quer coisa melhor que isso para a minha tagarelice?
momento de reflexãoInteressante saber que segundo Freud "A privação da visão do analista é acompanhada pelo convite à auto-observação" quase algo do tipo ‘vamos apagar a luz para melhor ver o filme’. Ele utilizava uma metáfora que sugeria ao paciente comporta-se como um viajante que estivesse sentado à janela de um vagão e descrevesse a paisagem que vai mudando a uma outra pessoa atrás dele.

Viu como o divã não é tão ruim assim?Aqui vamos trocar os papéis eu vou tagarelar sobre minhas reflexões do dia a dia à frente da minha janela e vamos juntos ter um dedo de prosa sobre as loucuras e as riquezas da nossa vida cotidiana.